O Tabernáculo de Moisés e Cerimónias

A posição dos querubins, tendo o rosto voltado um para o outro, e olhando reverentemente abaixo para a arca, representava a reverência com que a hoste celestial considera a lei de Deus, e seu interesse no plano da redenção.
Acima do propiciatório estava o shekinah, manifestação da presença divina; e dentre os querubins Deus tornava conhecida a Sua vontade. Mensagens divinas às vezes eram comunicadas ao sumo sacerdote por uma voz da nuvem. Algumas vezes uma luz caía sobre o anjo à direita, para significar aprovação ou aceitação; ou uma sombra ou nuvem repousava sobre o que ficava ao lado esquerdo, para revelar reprovação ou rejeição.

A lei de Deus, encerrada na arca, era a grande regra de justiça e juízo. Aquela lei sentenciava a morte ao transgressor; mas acima da lei estava o propiciatório, sobre o qual se revelava a presença de Deus, e do qual, em virtude da obra expiatória, se concedia o perdão ao pecador arrependido. Assim …”a misericórdia e a verdade se encontraram; a justiça e a paz se beijaram”. Sal. 85:10.
Nenhuma linguagem pode descrever a glória do cenário apresentado dentro do santuário – as paredes chapeadas de ouro que refletiam a luz do áureo castiçal, os brilhantes matizes das cortinas ricamente bordadas com seus resplendentes anjos, a mesa e o altar de incenso, brilhante pelo ouro; além do segundo véu a arca sagrada, com os seus querubins, e acima dela o santo shekinah, manifestação visível da presença de Jeová; tudo não era senão um pálido reflexo dos esplendores do templo de Deus no Céu, o grande centro da obra pela redenção do homem.
Aproximadamente meio ano foi ocupado na construção do tabernáculo. Quando este se completou, Moisés examinou toda a obra dos construtores, comparando-a com o modelo a ele mostrado no monte, e com as instruções que de Deus recebera. “Como o Senhor a ordenara, assim a fizeram; então Moisés os abençoou.” Êxo. 39:43. Com ávido interesse as multidões de Israel juntaram-se em redor para ver a estrutura sagrada. Enquanto estavam a contemplar aquela cena com satisfação reverente, a coluna de nuvem pairou sobre o santuário e, descendo, envolveu-o. “E a glória do Senhor encheu o tabernáculo.” Êxo. 40:34. Houve uma revelação da majestade divina, e por algum tempo mesmo Moisés não pôde entrar ali. Com profunda emoção o povo viu a indicação de que a obra de suas mãos fora aceita. Não houve ruidosas manifestações de regozijo. Temor solene repousava sobre todos. Mas sua alegria de coração transbordou em lágrimas de regozijo, e murmuravam em voz baixa ardorosas palavras de gratidão de que Deus houvesse condescendido em habitar com eles.
Por determinação divina a tribo de Levi foi separada para o serviço do santuário. Nos tempos primitivos cada homem era o sacerdote de sua própria casa. Nos dias de Abraão, o sacerdócio era considerado direito de primogenitura do filho mais velho. Agora, em lugar dos primogênitos de todo o Israel, o Senhor aceitou a tribo de Levi para a obra do santuário.
Por meio desta honra distinta manifestou Ele Sua aprovação à fidelidade da mesma, tanto por aderir ao Seu serviço como por executar Seus juízos quando Israel apostatou com o culto ao bezerro de ouro. O sacerdócio, todavia, ficou restrito à família de Arão. A este e seus filhos, somente, permitia-se ministrar perante o Senhor; o resto da tribo estava encarregada do cuidado do tabernáculo e de seu aparelhamento, e deveria auxiliar os sacerdotes em seu ministério, mas não deveria sacrificar, queimar incenso, ou ver as coisas sagradas antes que estivessem cobertas.
De acordo com as suas funções, foi indicada ao sacerdote uma veste especial. “Farás vestidos santos a Arão teu irmão, para glória e ornamento” (Êxo. 28:2) – foi a instrução divina a Moisés. A veste do sacerdote comum era de linho alvo, e tecida em uma só peça. Estendia-se até quase aos pés, e prendia-se à cintura por um cinto branco de linho, bordado de azul, púrpura e vermelho. Um turbante de linho, ou mitra, completava seu traje exterior. A Moisés, perante a sarça ardente, foi determinado que tirasse as sandálias, porque a terra em que estava era santa. Semelhantemente os sacerdotes não deveriam entrar no santuário com sapatos nos pés. Partículas de pó que a eles se apegavam, profanariam o lugar santo. Deviam deixar os sapatos no pátio, antes de entrarem no santuário, e também lavar tanto as mãos como os pés, antes de ministrarem no tabernáculo, ou no altar dos holocaustos. Desta maneira ensinava-se constantemente a lição de que toda a contaminação devia ser removida daqueles que se aproximavam da presença de Deus.
As vestes do sumo sacerdote eram de custoso material e de bela confecção, em conformidade com a sua elevada posição. Em acréscimo ao traje de linho do sacerdote comum, usava uma vestimenta de azul, também tecida em uma única peça. Ao longo das fímbrias era ornamentada com campainhas de ouro, e romãs de azul, púrpura e escarlate. Por sobre isto estava o éfode, uma vestidura mais curta, de ouro, azul, púrpura, escarlate e branco. Era preso por um cinto das mesmas cores, belamente trabalhado. O éfode não tinha mangas, e em suas ombreiras bordadas de ouro achavam-se colocadas duas pedras de ônix, que traziam os nomes das doze tribos de Israel.
Sobre o éfode estava o peitoral, a mais sagrada das vestimentas sacerdotais. Este era do mesmo material que o éfode. Era de forma quadrada, media um palmo, e estava suspenso dos ombros por um cordão de azul, por meio de argolas de ouro. As bordas eram formadas de uma variedade de pedras preciosas, as mesmas que formam os doze fundamentos da cidade de Deus. Dentro das bordas havia doze pedras engastadas de ouro, dispostas em fileiras de quatro, e como as das ombreiras, tendo gravados os nomes das tribos. As instruções do Senhor foram: “Arão levará os nomes dos filhos de Israel no peitoral do juízo sobre o seu coração, quando entrar no santuário, para memória diante do Senhor continuamente.” Êxo. 28:29. Assim ” o Mashiach”, o grande Sumo Sacerdote, pleiteando com Seu sangue diante do Pai, em prol do pecador, traz sobre o coração o nome de toda alma arrependida e crente. Diz o salmista: “Eu sou pobre e necessitado; mas o Senhor cuida de mim.” Sal. 40:17.

À direita e à esquerda do peitoral havia duas grandes pedras de grande brilho. Estas eram conhecidas por Urim e Tumim. Por meio delas fazia-se saber a vontade de Deus pelo sumo sacerdote. Quando se traziam perante o Senhor questões para serem decididas, uma auréola de luz que rodeava a pedra preciosa à direita, era sinal do consentimento ou aprovação divina, ao passo que uma nuvem que ensombrava a pedra à esquerda, era prova de negação ou reprovação.
A mitra do sumo sacerdote consistia no turbante de alvo linho, tendo presa ao mesmo, por um laço de azul, uma lâmina de ouro que trazia a inscrição: “Santidade ao Senhor.” Êxo. 28:36. Todas as coisas ligadas ao vestuário e conduta dos sacerdotes deviam ser de molde a impressionar aquele que as via, dando-lhe uma intuição da santidade de Deus, santidade de Seu culto, e pureza exigida daqueles que iam à Sua presença…
Nenhum olho mortal a não ser o do sumo sacerdote devia ver o compartimento interno do santuário. Apenas uma vez ao ano podia o sacerdote entrar ali, e isto depois da mais cuidadosa e solene preparação. Com tremor entrava perante Deus, e o povo, com reverente silêncio, aguardava a sua volta, tendo erguido o espírito em oração fervorosa pela bênção divina. Diante do propiciatório o sumo sacerdote fazia expiação por Israel; e na nuvem de glória Deus Se encontrava com ele. Sua demora ali, além do tempo costumeiro, enchia-os de receio de que, por causa de seus pecados ou dos dele, houvesse sido morto pela glória do Senhor.
O culto cotidiano consistia no holocausto da manhã e da tarde, na oferta de incenso suave no altar de ouro, e nas ofertas especiais pelos pecados individuais. E também havia ofertas para os sábados, luas novas e solenidades especiais.

Toda manhã e tarde, um cordeiro de um ano era queimado sobre o altar, com sua apropriada oferta de manjares, simbolizando assim a consagração diária da nação a Jeová, e sua constante necessidade do sangue expiatório… Deus ordenara expressamente que toda oferta apresentada para o ritual do santuário fosse “sem mácula”. Êxo. 12:5. Os sacerdotes deviam examinar todos os animais levados para sacrifício, e rejeitar todo aquele em que se descobrisse algum defeito. Apenas uma oferta “sem mácula” poderia ser um símbolo da perfeita pureza dAquele que Se ofereceria como “um cordeiro imaculado e incontaminado”…

Ellen Gold White, Patriarcas e Profetas, págs. 348 a 352.

Encerramento do Ministério de Cristo no Santuário Celestial


A pregação de um tempo definido para o juízo, na proclamação da primeira mensagem, foi ordenada por Deus. O cômputo dos períodos proféticos nos quais se baseava aquela mensagem, localizando o final dos 2.300 dias no outono de 1844, paira acima de qualquer contestação. O Grande Conflito, pág. 457.
"Eu continuei olhando", diz o profeta Daniel, "até que foram postos uns tronos, e um Ancião de Dias Se assentou; o Seu vestido era branco como a neve, e o cabelo de Sua cabeça como a limpa lã; o Seu trono chamas de fogo, e as rodas dele fogo ardente. Um rio de fogo manava e saía de diante dEle; milhares de milhares O serviam, e milhões de milhões estavam diante dEle; assentou-se o juízo, e abriram-se os livros." Dan. 7:9 e 10.
Assim foi apresentado à visão do profeta o grande e solene dia em que o caráter e vida dos homens passariam em revista perante o Juiz de toda a Terra, e cada homem seria recompensado "segundo as suas obras". O Ancião de Dias é Deus, o Pai. Diz o salmista: "Antes que os montes nascessem, ou que Tu formasses a Terra e o mundo, sim, de eternidade a eternidade, Tu és Deus." Sal. 90:2. É Ele, fonte de todo ser e de toda lei, que deve presidir ao juízo. E santos anjos, como ministros e testemunhas, em número de "milhares de milhares, e milhões de milhões", assistem a esse grande tribunal.
"E, eis que vinha nas nuvens do céu Um como o Filho do homem; e dirigiu-Se ao Ancião de Dias, e O fizeram chegar até Ele. E foi-lhe dado o domínio e a honra, e o reino, para que todos os povos, nações e línguas O servissem; o Seu domínio é um domínio eterno, que não passará." Dan. 7:13 e 14. A vinda de Cristo aqui descrita não é a Sua segunda vinda à Terra. Ele vem ao Ancião de Dias, no Céu, para receber o domínio, a honra, e o reino, os quais Lhe serão dados no final de Sua obra de mediador. É esta vinda, e não o seu segundo advento à Terra, que foi predita na profecia como devendo ocorrer ao terminarem os 2.300 dias, em 1844. Assistido por anjos celestiais, nosso grande Sumo Sacerdote entra no lugar santíssimo, e ali comparece à presença de Deus a fim de Se entregar aos últimos atos de Seu ministério em prol do homem, a saber: realizar a obra do juízo de investigação e fazer expiação por todos os que se verificarem com direito aos benefícios da mesma.
Os Únicos Casos Considerados
No cerimonial típico, somente os que tinham vindo perante Deus com confissão e arrependimento, e cujos pecados, por meio do sangue da oferta para o pecado, eram transferidos para o santuário, é que tinham parte na cerimónia do dia da expiação. Assim, no grande dia da expiação final e do juízo investigativo, os únicos casos a serem considerados são os do povo professo de Deus. O julgamento dos ímpios constitui obra distinta e separada, e ocorre em ocasião posterior. "É tempo que comece o julgamento pela casa de Deus; e, se primeiro começa por nós, qual será o fim daqueles que são desobedientes ao evangelho?" I Ped. 4:17.
Os livros de registro no Céu, nos quais estão relatados os nomes e ações dos homens, devem determinar a decisão do juízo. Diz o profeta Daniel: "Assentou-se o juízo, e abriram-se os livros." O escritor do Apocalipse, descrevendo a mesma cena, acrescenta: "Abriu-se outro livro, que é o da vida; e os mortos foram julgados pelas coisas que estavam escritas nos livros, segundo as suas obras." Apoc. 20:12.
O livro da vida contém os nomes de todos os que já entraram para o serviço de Deus. Jesus ordenou a Seus discípulos:
"Alegrai-vos antes por estarem os vossos nomes escritos nos Céus." Luc. 10:20. Paulo fala de seus fiéis cooperadores, "cujos nomes estão no livro da vida". Filip. 4:3. Daniel olhando através dos séculos para um "tempo de angústia qual nunca houve", declara que se livrará o povo de Deus, "todo aquele que se achar escrito no livro". E João, no Apocalipse, diz que apenas entrarão na cidade de Deus aqueles cujos nomes "estão inscritos no livro da vida do Cordeiro". Dan. 12:1; Apoc. 21:27.
"Há um memorial escrito diante" de Deus, no qual estão registradas as boas ações dos "que temem ao Senhor, e para os que se lembram do Seu nome." Mal. 3:16. Suas palavras de fé, seus atos de amor, acham-se registrados no Céu. Neemias a isto se refere quando diz: "Deus meu, lembra-Te de mim; e não risques as beneficências que eu fiz à casa de meu Deus." Nee. 13:14. No livro memorial de Deus

A CHAMA DESVANECIDA


Era a primeira noite de Chanucá. Do lado de fora, uma tempestade de neve assolava a região, mas no interior da casa havia tranquilidade e calor. O Rebe, Rabino Baruch de Mezhibuz, neto do Baal Shem Tov, estava parado diante da chanuquiá, rodeado por um grupo dos seus chassidim.
Recitando as bênçãos com grande devoção, acendeu a vela única, colocou o shamash, a vela auxiliar, no lugar apropriado, e começou a cantar Hanerot Halalu. O seu rosto irradiava santidade e júbilo; os chassidim, extasiados, tinham o olhar fixo no mestre.
A chama da vela ardia com vigor. O Rebe e seus chassidim, sentados ao lado, cantavam Maoz Tsur e outras melodias de Chanucá. De repente, a vela começa a tremeluzir e a saltar, descontrolada, apesar de não haver, na casa fechada, nenhuma corrente de ar. Era como se a chama estivesse dançando, animadamente. Ou se debatendo. E, de repente, desapareceu!
Não que se tivesse apagado pois não havia fumo; simplesmente se desvanecera. Era como se tivesse voado para outra parte. O Rebe parecia perdido, absorto nos seus pensamentos. O seu assistente quis reacender o pavio, no que foi impedido pelo mestre.
Fez um sinal para que os chassidim continuassem a cantar. Várias vezes, entre as melodias, o Rebe comentava trechos da Torá. A noite passou, muito agradável, e os chassidim que lá estavam esqueceram-se, por completo, da vela de Chanucá desaparecida.
Já era quase meia-noite, quando a tranquilidade foi bruscamente interrompida pelo som áspero das rodas de uma carruagem rangendo contra o gelo da neve endurecida. A porta da casa abriu-se, num rompante, fazendo surgir um chassid que vinha de um vilarejo distante. A sua entrada foi um choque. As suas vestes estavam rasgadas e sujas, o seu rosto inchado e sangrando. Mas, apesar do contraste gritante com a sua aparência física, os seus olhos brilhavam e as suas feições resplandeciam de júbilo.
 
Sentou-se à mesa e, com todos os olhos cravados nele, começou a falar, com grande excitação. “Não é a primeira vez que venho a Mezhibuz pelo caminho da floresta e conheço muito bem o trajeto. Mas, esta semana, houve uma grande nevasca e isto retardou a minha viagem. Comecei a me preocupar que não chegaria aqui a tempo de desfrutar da companhia do Rebe na primeira noite de Chanucá. Este pensamento me perturbou a tal ponto que não esperei que a tempestade cedesse, continuando a jornada, dia e noite, na esperança de chegar a meu destino a tempo.
 
“A ideia foi tola, tenho que admitir, mas quando me dei conta, já era tarde. Ontem à noite, deparei-me com um bando de ladrões que ficaram felizes de me encontrar. Imaginavam que se eu estava em viagem com aquele tempo, à noite, sozinho, certamente era um rico comerciante cujos negócios não poderiam tolerar nenhum atraso. Obrigaram-me a lhes entregar todo o meu dinheiro.
Tentei explicar-lhes as minhas razões, implorando-lhes, mas eles recusaram terminantemente a acreditar que eu não tinha dinheiro. Agarraram as rédeas do meu cavalo e saltaram sobre a carroça. Aboletaram-se a meu lado, mantendo-me sob sua mira, e dirigiram a carroça até ao acampamento do chefe do bando para lá decidir a minha sorte.
Enquanto esperavam pelo chefe, questionaram-me e me perscrutaram, com riqueza de detalhes, revistando a carroça e a minha pessoa. Espancaram-me, na tentativa de arrancar o segredo acerca do meu dinheiro. Só tinha para lhes contar a verdade e esta eles não estavam preparados para aceitar.
 
Após horas daquela tortura, eles me amarraram e me atiraram, ferido e exausto, num porão escuro. Os meus ferimentos sangravam e todo o meu corpo ardia de dor. Lá fiquei até à noite, quando o chefe dos bandidos veio ter comigo.
 
Tentei, da melhor forma possível, descrever-lhe a grande alegria de estar na presença do Rebe e de como era importante, para mim, chegar à sua casa antes que se iniciasse a festividade. E tamanha importância justificava o risco que eu correra por viajar à noite, em meio à tempestade.
 
Ao que parece, as minhas palavras o impressionaram. Ou então ele foi persuadido pela minha determinação inabalável, ainda que sob tortura. Não importa o motivo, mas dou graças a D”us por ele ter-me livrado das algemas, dizendo”:
“Vejo que a tua fé em D”us é forte e que o teu desejo de estar com o seu Rebe é genuíno e intenso. Mas agora veremos se isto é verdade. Vou libertá-lo, mas fique sabendo que o caminho é extremamente perigoso. Mesmo os mais resistentes não se expõem a atravessar a floresta, sozinhos, fazendo-o apenas em grupo, e muito menos numa noite de tempestade. Vá embora e tente a sua sorte. E lhe prometo: se você conseguir cruzar a floresta nestas condições terríveis e chegar do outro lado a salvo, sem ser molestado pelas bestas ferozes e outros perigos, acabarei com o meu bando e mudarei completamente o meu comportamento e meus hábitos:
Se conseguir sair dos limites da cidade, jogue o seu lenço na vala à beira da estrada, atrás da placa de sinalização. Um dos meus homens estará esperando. Assim saberei se você o conseguiu”.
 
“Foi aí que o terror voltou a se apossar de mim. As agruras pelas quais eu passara já se tinham cicatrizado, em minha alma. E, agora, pesadelos ainda mais negros me assaltavam. Mas quando pensei na maravilha que seria estar com o Rebe à luz da chanuquiá, afastei do meu espírito todas as apreensões. Não tinha mais nenhum minuto a perder. Devolveram-me o meu cavalo e a carroça e me pus a caminho:
Estava um breu, do lado de fora. Ouvia perfeitamente os sons dos animais da floresta, que pareciam estar muito próximos. Temi estar cercado por um bando de lobos.
Agachando-me próximo ao pescoço do cavalo, com a espora instiguei-o a andar. Ele se recusava a adentrar naquela escuridão total. Chicoteei-o. O animal nem se moveu.

Não sabia mais o que fazer. Naquele momento, surgiu uma luzinha tremeluzente diante da carroça. O cavalo adiantou-se em sua direção. A luz avançava; o cavalo, seguindo-a. E durante todo o caminho, os animais ferozes fugiam de nós, como se aquela chama minúscula e dançante os estivesse afastando.
 
Seguimos a chama até chegar aqui. Cumpri a minha parte do trato e atirei o lenço no local indicado. Quem sabe? Talvez aqueles bandidos cruéis mudassem seu comportamento, tudo por mérito daquela pequenina luz”.
Foi aí que os chassidim perceberam que a luz de Chanucá havia retornado ao seu lugar. E lá estava, ardendo no lindo candelabro, com uma chama forte e pura, como se tivesse sido acesa há pouco.
 
Nota biográfica:
 O Rabino Baruch nasceu em 1753, em Mezhibuz, a cidade de onde o seu ilustre avô, o Baal Shem Tov, conduziu o Movimento do Chassidismo, por ele fundado. O Rabino era filho de Adele, filha do Baal Shem Tov e do Rabino Yechiel Ashkenazi. Ele foi um dos rabinos mais proeminentes na geração de discípulos do Maguid de Mezritch e teve milhares de chassidim como seus seguidores.
 
Bibliografia:
 Recontado pelo Rabino Yrachmiel Tilles, na Sichat Ha-Shavua nº 53, publicada pela organização ASCENT, de Safed, em Israel.
 (Tradução: L. Wachsmann)
 
Fonte: Revista Morashá – Edição 39 – Dezembro de 2002